segunda-feira, 28 de abril de 2025

A Bênção da Inutilidade

 



Não há nada mais INÚTIL que um bebê recém-nascido! Se você pensar logicamente, racionalmente, se o seu olhar sobre a questão a partir de uma ética capitalista, em que se analisa a valia de algo baseando-se no “lucro” que algo pode nos trazer, esqueça, pois bebês são exatamente a antítese do pensamento de ganhar. Seus recursos diminuirão, assim como suas noites de sono, e não se engane, suas prioridades mudarão, e não haverá argumentos justificáveis ​​para tantos gastos (pelo menos não a curto prazo).

 

Bebês são amados pela sua identidade, pelo quê e por quem são e não pela sua utilidade, bem como deveriam ser as relações decorrentes do amor, ou seja, difíceis de explicar, mas avassaladoramente verdadeiras e inegavelmente reais. Isso é absolutamente o inverso de tudo que é norteado pela sua utilidade, pelo que é vantajoso ou lucrativo, como nosso trabalho por exemplo, onde em que nosso valor está diretamente relacionado com a nossa produção, em nossa contribuição, em como nos mostramos úteis.

 

Eis a bênção da inutilidade: validar relações que se baseiam na afetuosidade, no amor, em coisas que permanecem e que geralmente não são tangíveis, em meio a um tempo tão marcado por mudanças e superficialidades. Você é amado ou apenas é útil? Você ama ou apenas satisfaz suas carências? Não seria um exagero afirmar que, quanto menos utilidade e interesses permearem uma relação, mais autêntica ela será. O valor de uma relação seria melhor avaliado naquilo que estamos dispostos a abrir mão por ela, não que estamos interessados ​​a perder, e não na expectativa do que podemos ganhar, ou seja, o preço que estou disposto a pagar por algo, mostra o valor que aquilo possui para mim. 

 

 Esse parâmetro (da inutilidade) nos serve para tantas coisas, para tantas áreas da nossa vida, até mesmo para a nossa espiritualidade. Os religiosos frequentadores dos balcões de autoajuda emocional sob o nome de “igreja”, apregoam um Deus que faz, que realiza, que resolve, ou seja, que é ÚTIL! E esse discurso em países subdesenvolvidos, onde as pessoas não têm recursos para seu autosustento, funciona que é uma beleza, afinal, quem não quer uma solução “mágica” para suas mazelas? Tire a utilidade deste "deus" fabricado à nossa imagem conforme a nossa semelhança, e assistiremos ao êxodo dos fiéis.

 

Se voltarmos nossos olhos para as páginas da Escritura Sagrada, em especial para os Evangelhos, veremos que a maior contribuição do Cristianismo para a teologia moderna é a revelação de Deus como Pai! Além do Cristo revelar-se como Filho de Deus, ele diz que o Pai é um “Pai Nosso”, e que ele é o primogênito de muitos irmãos, e isso é tão verdadeiro e poderoso que, qualquer religião pode  arrogar-se de levar os as pessoas a algum(ns) deus(es), mas disse Jesus “ninguém vem ao Pai, a não ser por mim” (João 14.6). A relação com Deus como Pai passa invariavelmente pela Revelação de Jesus Cristo, o seu Filho, nosso Senhor e também nosso irmão mais velho.

 

Se nós, com todas as imperfeições, somos capazes de basear nossas relações essenciais (como a que temos com nossos filhos) em amor, que dirá nosso Pai que está no Céu, como nos olhará? Não há nada que eu faça para que Ele me ame mais, ou menos, porque na espiritualidade cristã centrada no Evangelho, Deus não nos vê pela nossa utilidade, ele nos vê pela nossa identidade, o nosso DNA revela que somos filhos de Deus. Antes de Jesus iniciar seu ministério aqui na Terra, enfrentando todo tipo de agrura, escândalo, traição, culminando em sua morte na cruz do Calvário, Deus Pai o presenteou com algo realmente valoroso que o capacitaria para tudo o que viria pela frente, o Pai lhe deu autoridade, reafirmando a sua identidade e o Seu amor por ele, sem que nada "útil" ainda tivesse sido realizado. Por ocasião em que Jesus foi batizado por João Batista, nas águas do rio Jordão, diz a Palavra de Deus:

“  Então, uma voz dos céus disse:  Este é o meu Filho amado, em quem tenho prazer.  ” (Mateus 3.17) 

     

    Quem sabe não seja isto que nos falta? Somente a verdade da nossa identidade nos revelará nosso real valor, para além das opiniões dos outros, ou do jugo de ter que servir para sermos amados. Pelo contrário, somos amados, e isto é tudo o que precisamos para descobrir e viver o nosso real propósito de vida.



Nota do autor: esse texto eu dedico ao meu filho Davi, em quem minha alma muito se compraz, e que no auge dos quase dois meses de vida, sente-se absolutamente amado.

domingo, 9 de setembro de 2018

Memórias do Cárcere



Hoje resolvi rever um conhecido, daqueles que admiramos mas que pelos afazeres do cotidiano, acabamos por nos distanciar. E como em uma roda de bate papo, minha alma sentou-se com João, o Batista, e outro amigo em comum, o Consolador. Na verdade, é apenas por causa do Consolador, que estes encontros tornam-se possíveis e reais, Ele vivifica tudo o que está no Livro, fazendo da letra, Palavra de Deus para nós.

Visitei João não no ápice do seu ministério, quando ele honrosamente batizou o Messias esperado,  mas no crepúsculo da sua existência, quando aprisionado por Herodes Antipas, ele aguardava um desfecho por certo obscuro. O Batista havia mudado. Não sei se os anos no deserto, ou a solidão no seu exílio, mas o homem que encontrei não tinha a postura de um profeta,  continuava sisudo, mas já sem a segurança e firmeza que caracterizavam sua voz, bem como seu atos. Ele estava tomado pelo medo de descrer. Ele havia depositado toda sua confiança em seu primo, Jesus de Nazaré, em quem julgava estar destinado ser o Ungido, aquele que inauguraria o Reino de Deus, e que conforme cria, livraria Israel do julgo romano, colocando a nação em um lugar de honra e domínio sobre seus adversários.

-    Será que estive enganado todo esse tempo? Indagava ele. O coração do Batista, outrora cheio de fé e esperança, agora dá a lugar a um coração triste, angustiado naquela alcova sombria e fétida, sem a convicção de que a Promessa de fato se cumprira em Jesus, ou se ele era mais um dos muitos falsos messias, que surgiam vez ou outra pela Palestina, o que faria dele mesmo, um falso profeta. Mas não podia ser, os sinais estavam se cumprindo em Jesus, tantas vezes ele mesmo ouvira sua mãe contando a história da miraculosa concepção de Maria, ele o conhecia, sabia que Jesus era diferente, e que o Eterno havia confirmado que ele era o seu Ungido, na ocasião do seu batismo. Apesar de tudo isso, Israel continuava sendo mais uma província subjugada pelo Império Romano, o povo sofria, e ele sabia disto. Será que as mãos do Eterno estavam encolhidas? Será que Ele havia rejeitado perpetuamente o seu povo? Será que Ele o havia rejeitado também? Tudo fora feito conforme o Espírito do Senhor havia ordenado, o Batista tinha consciência que havia falado sua mensagem, ou melhor, que sua vida encarnava a mensagem que ele profetizou.

Não podemos subestimar o poder que aquele cárcere impunha sobre a alma de João. Ele sentia-se fracassado, estava só, isolado, não mais conseguia sentir as mãos do Eterno o guiando naquele lugar. O único pensamento que lhe vinha a mente era "se ele fosse de fato o Messias, porque não nos libertou, porque não me libertou....". Para ele, o maior problema não era estar preso, não era saber que seu fim se aproximava, mas sentir que havia falhado, que talvez tudo que estava sofrendo fosse em vão, que Jesus não era o Messias. Cercado por um silêncio sepulcral, não só ao seu redor, mas sobretudo em seu coração. O que estava acontecendo? Nenhuma palavra, nenhuma visita, nenhuma resposta, nada.

Em meu coração, pergunto ao Consolador: conheço a história, sei da importância de João na narrativa bíblica, da sua intrepidez que o fazia semelhante à Elias, mas ao vê-lo assim, deprimido, claudicante em suas convicções, o que lhe faltava?

-    Fé! Respondeu-me o Consolador. João viu o que todos antes dele gostariam de presenciar, o surgimento do Messias, João o conhecia, pode batizá-lo, viu a chegada do Reino de Deus, mas ainda lhe faltava fé, para de fato entrar no Reino de Deus e o Reino nele. Ele precisava aprender que o Reino chegou, mas sem visível aparência.

Toda a melancolia da cena é interrompida com a chegada dos discípulos que João enviara a Jesus, para questioná-lo. Eles conseguem, por um momento ter acesso ao cárcere de João, e cheios de euforia começaram a tagarelar das coisas que haviam ouvido e visto de Jesus:

-    Mestre, os cegos veem, os surdos ouvem, os mortos ressuscitam. Mestre é ele, é ele.
-    Mestre, o Eterno é com ele, o povo o segue, jamais vimos tantos sinais.
-    Ele fala com autoridade jamais vista.
-    É como o senhor nos ensinou, ele é o Messias, o Espírito do Senhor o ungiu, aleluias!

Neste momento, um sentimento de alegria e contrição tomam conta do coração de João, e como se lhe abrisse o entendimento, ele ajoelha-se e ergue as mãos aos céus, e com os olhos cheios de lágrimas proclama: "- Yeshua Hamashiach, Yeshua Hamashiach!" (Jesus é o Messias, Jesus é o Messias!). Em fração de segundos, ele se lembra de suas próprias palavras: "convém que ele cresça e eu diminua...", de fato, foi como se a alegria do coração de seus discípulos transbordasse ao ponto e encher a alma de João, fazendo compreender que o Reino de Deus se inaugura no coração dos homens, e que só quem experimenta essa libertação, jamais seria novamente escravizado por nenhum jugo humano. Pouco depois, os guardas que o vigiavam, expulsaram seus discípulos dali. Mas, os dias, semanas, e meses que se seguiram, testemunharam um novo homem surgir, não em sua aparência, mas em postura, seus olhos brilhavam, o profeta voltou.

Herodes, para satisfazer os caprichos de sua amante, ordena que matem João, e tragam sua cabeça em uma bandeja. Três soldados seguem para executar a ordem que receberam, mas ao entrar na cela, João os recebe de pé, os olha diretamente nos olhos e diz: "façam o que lhes foi ordenado, mas saibam, o Filho de Davi vive, e seu reino será eterno". Herodes teve o que queria, mas ao saber das palavras de João, temeu.

O Consolador mostrou-me a fé do Batista, que não mudou as circunstâncias, mas sim a ele próprio, fé que o libertou, fazendo seu coração livre, poderoso, inabalável. João pode ir além daquelas paredes que encarceravam seu corpo, mas não seu espírito, seus olhos, mas não sua visão, seu cárcere presente era transitório, e sua morte lhe abriu as portas para a eternidade. João estava além de qualquer prisão.

Ao terminar a leitura, fiz um últi

mo pedido ao Consolador:

- Dá-me uma vida com motivos e convicções tais que me façam perder a cabeça se preciso for, para ser inteiro, em qualquer circunstância. Amém, amém.

sexta-feira, 3 de março de 2017

Jesus pregou o Reino e em seu lugar veio a igreja



Esta é a espiritualidade de Jesus, base sobre a qual se construiu o edifício histórico do cristianismo. Em primeiro lugar, fez-se uma tradução da experiência de Jesus, e ela foi consignada nos quatro evangelhos. Em seguida criaram-se comunidades que tomaram Jesus como referência de vida e de sentido. Nasceram as igrejas, ritos sacramentais, credos doutrinários e códigos de conduta ética e moral. Lentamente se construiu o cristianismo como corpo histórico.

Mas atentemos bem. Jesus não anunciou uma Igreja. Ele anunciou o Reino de Deus e a transformação interior(conversão). Posteriormente, no seu lugar, surgiu a Igreja como comunidade de fieis, que crêem em Jesus. Essa evolução é quase fatal e férrea. Mas ela é outra coisa. Não pode ser identificada como a experiência original de Jesus. Ela está subjacente à Igreja e às suas instituições, mas não se identifica com ela. Uma coisa é a fonte de água cristalina.Outra coisa é sua canalização para o aproveitamento humano. O cano de água não é a água.

Infelizmente, muitas vezes os cristãos identificaram o Reino de Deus com a Igreja, e Jesus com o Papa, com o bispo ou com o padre. Essa identificação representa uma patologia e uma decadência. O meio se transforma em fim. A Igreja, em vez de se apresentar caminho de salvação, se apresenta, erroneamente, como a própria salvação, como se a imagem do pão fosse o próprio pão. 

As autoridades eclesiásticas, em de vez de serem representantes de Deus e do povo religioso, ocupam o lugar de Deus pela reverencia e obediência total que exigem. A Igreja deve ser como a vela acesa. O que ilumina é a chama, não a vela. A vela é suporte para que a chama queime, irradiando luz e calor. A vela é a Igreja, e chama é Jesus e sua experiência fundadora. 

Mas o que conta fundamentalmente no cristianismo em suas múltiplas igrejas é a experiência singular de Jesus de Nazaré. Nós seremos herdeiros de Jesus não por habitarmos a instituição cristã e seguirmos seus preceitos. Seremos herdeiros se tentarmos continuamente refazer a experiência de Jesus, se entrarmos no movimento de Jesus, nos sentirmos filhos e filhas de Deus, e , ao mesmo tempo, olharmos os outros também como filhos e filhas, tratando-os de dentro de cada um e fazendo de cada mulher de cada homem seus filhos e filhas, nossos irmãos e irmãs. 

Se a religião cristã, em suas várias formas eclesiais e institucionais, produz continuamente essa experiência, ela se transforma em caminho espiritual. Ela representa a espiritualidade pura. Mas se ela não transforma a nossa interioridade, se continua a ser apenas religião de consolo e meio de salvação por medo da perdição, ela se transmuta em ópio. Se permite que seus ritos e símbolos sejam usados e abusados no mercado religioso, especialmente pela grande mídia, para apenas suscitar comoção e não aquela transformação interior decorrente da experiencia do Deus vivo e do engajamento pela justiça, pela paz e pela integridade do Criador, ela se transforma em simples fetiche. Podemos até, com a religião, pecar contra Deus, e pela religião afogar a espiritualidade.

Por isso é sábia a prescrição do Decálogo ao coibir, no segundo mandamento, o uso do santo nome de Deus em vão. Talvez seja o mandamento contra o qual as religiões mais pecam, especialmente as Igrejas mediáticas. Nas rádios e nos programas de televisão é Jesus para cá e Jesus para lá, sem qualquer sentido de reverência e de moderação. Banaliza-se o sagrado, como se Deus, Jesus e as Escrituras fossem uma moeda circulante para todas as finalidades. O nome de Deus passa a ser usado para os interesses dos homens, não para os interesses de Deus, em dissonância com a natureza do sagrado e do espiritual. 


Texto tirado do livro " ESPIRITUALIDADE - UM CAMINHO PARA A TRANSFORMAÇÃO" - Leonardo Boff - Editora Sextante.

segunda-feira, 27 de fevereiro de 2017

Santa Folia



Nesses dias de folia, no Brasil não tem igual
De Norte a Sul, do rico ao pobre,
Tudo vale, tudo pode,
Na grande festa deste tal de Carnaval.
Mas eu penso no final de tal folia
Quando acaba a alegria
O que sobra é só canseira
E ao raiar da quarta feira
As fantasias que tão lindas
Dão lugar a realidade,
E as muitas cores na verdade,
Se resumem só em cinzas.
Você pode achar besteira,
O que importa é aproveitar,
Dançar, pular, a noite inteira,
Até o mundo se acabar.
Quem não curte o carnaval
Bom sujeito não pode ser,
Não gostar de samba,
Trio elétrico ou dos blocos,
É doente do pé, já morreu,
Ou não sabe viver.
Mas não se trata do gostar,
Saber curtir ou festejar,
Mas um desejo que me invade
Quero um prazer sem validade,
E que na quarta não se acabe
E que não me faça lamentar.
Há um tipo de folia
Que se desfila no dia a dia
Sem fantasia, ou vaidade.
E se você quiser provar
Também pode, é só entrar,
Basta vestir o "abadá":
Jesus Cristo é a verdade!
Isso não é religião,
Nem coisa de crente ou santarrão,
É um convite a liberdade,
A vida plena, a humanidade,
Onde todos são irmãos
E não há segregação,
De cor, crença, sexualidade,
Deus é Pai, e nós, irmãos.
E falo com sinceridade,
Você não vai se arrepender
Ainda há tempo, basta vontade,
De Jesus Cristo receber.
Nestes versos ritmados
Eu só queria desfilar
Na escola da vida
No bloco da Graça
O Evangelho proclamar,
Que Deus é Pai, e abram alas
Que na nossa avenida
A passarela é a própria vida,
E o enredo é sempre amar.


Alex lira

sábado, 31 de dezembro de 2016

Feliz Hoje Novo !


"Este é o dia que fez o Senhor; regozijemo-nos, e alegremo-nos nele."
Salmos 118:24


Estamos no último dia de 2016, a coisa mais comum é vemos por todos os lados, nas mais diversas redes sociais, são metas para o próximo ano, lamentos, promessas, e anseios de todos os tipos. Mas o único tempo que temos realmente é hoje. Até quando queremos relembrar o passado, só podemos faze lo no presente, ou quando nos ocupamos com o futuro, fazemos isso com algum tempo do nosso dia. 

A Bíblia diz que o tempo em si é uma criação divina. No relato de Gênesis 1.1 diz: "No princípio criou Deus o Céu e a terra.", só Deus poderia criar o tempo, pois Ele é Eterno (sem princípio nem fim), então a primeira criação de Deus foi o tempo, como uma "espaço" ou uma "dimensão" onde todas as outras coisas pudessem existir. E ainda, antes de criar a humanidade ele fez separação entre o dia e a noite, para nos servir como referências.

Se de fato o único tempo do qual somos senhores é o hoje, para que serve o passado e o futuro? Bem, o passado serve para nos ensinar, para nos lembrar que independente dos reveses que nos acometeram, nós ainda estamos vivos. O passado nos serve de refência para a compreensão parcial da nossa realidade hoje. e penso que se o passado ganhasse voz por um momento para nos dizer algo, seria: "aprenda, lembre, mas siga em frente."

O futuro nos dá esperança, motivação para continuar. Se no passado lemos um livro para entendermos até onde chegamos, o futuro é um cadermo em branco onde podemos escrever onde desejamos chegar, e como faremos isso.

Mas hoje é o dia que o Senhor nos fez, e entregou em nossas mãos (talvez por isso seja o tempo "presente"). E tudo issso que escrevi até agora serve para que eu possa lhe desejar:

"Feliz Hoje Novo!"

Ai vão algumas metas para hoje:

Não espere para dizer o quanto você ama alguém que lhe é ijmportante.

Perdoe alguém, e se preciso for, perdoe a si mesmo.

Considere que é melhor ser feliz, do que ter razão.

As pessoas sempre são mais importantes que as coisas, invista em alguém.

Não, você não é o centro do universo.

Tente outra vez.

Fazer alguém feliz, talvez seja o caminho para a sua própria felicidade.

Seja inteiro em tudo o que fizer.

Seja sempre você mesmo, existem peculiaridades únicas em você.


Não espere a contagem regressiva, a mudança do calendário, ou a "grande virada".  Comece agora, viva o agora, use o que estive ai ao seu alcance, surpreenda 2017  com um novo você. 

O que está esperando? Como diz a letra do funk...

"É hoje, é hoje, É HOJE!"




domingo, 2 de outubro de 2016

Por que não voto em pastores evangélicos?


Quem me conhece um pouco sabe que tenho posturas radicais em relação a alguns assuntos, e política definitivamente é um deles. Em períodos eleitorais, é impossível fugir destas questões, até porque somos bombardeados com propagandas, promessas, pedidos de votos, em todas as mídias sociais, TV, e nas rodas de conversas do cotidiano.

Política e religião não deveriam nunca se misturar, por dois motivos óbvios, primeiro porque o Estado é laico, e em segundo lugar, basta olharmos um pouco para a história da humanidade que saberemos que todas as vezes que isso ocorreu o resultado foi desastroso. Penso que qualquer pessoa tem o direito de se candidatar ao que quiser, desde que fale em seu próprio nome e de acordo com os seus ideais, e não como representante de um segmento religioso, ou até mesmo (pasmem) arrogue falar em nome de Deus. O comprometimento ético com o bem comum nada tem a ver com questões de fé. Lutar por educação, família, saneamento básico, segurança nada tem a ver com a fé que professamos, e sim com os valores que carregamos em nossas consciências, pois quem legisla, deve fazê-lo para o bem de todos, e não de um nicho.

Agora falando em especial do comportamento de alguns líderes evangélicos (e falo alguns porque toda generalização é burra!), espanta-me ver o desejo de poder e representatividade de algumas igrejas e denominações, que tentam colocar seus representantes para que tenham “voz” na sociedade. Toda igreja que se diz cristã deveria ter como seu exemplo maior o Cristo para nortear seus posicionamentos. Jesus nunca pleiteou poder político, inclusive sua resposta quando interrogado por Pilatos foi: “Meu Reino não é deste mundo.” (Jo 8.36). Você realmente acha que não haviam desigualdades sociais nos dias de Jesus, que não haviam opressões as minorias? Não havia fome, miséria e todo tipo de injustiça? Claro que sim! Mas a missão dele (e dos seus discípulos) era a mudança do meio social a partir da transformação do indivíduo, da consciência, e assim construir uma espiritualidade capaz de influenciar pessoas. “Cada um deve ficar na vocação com que foi chamado” (I Co 7.20). Se sua vocação é a política, exerça isso da melhor forma que você puder, de acordo com sua consciência e com integridade, mas se sua vocação é apascentar almas e conduzir pessoas ao conhecimento do Evangelho e a uma experiência real com Cristo, arrependa-se, lembre-se de onde você caiu, e volte ao primeiro amor (Ap 2.4,5).

Quer ser relevante? Quer fazer o bem ao seu bairro, cidade ou estado? Cuide dos pobres, aflitos, rejeitados, abra seu coração para fazer o bem sem esperar retorno, pregue a verdade, apascente, cuide dos órfãos e das viúvas, ame ao seu Deus amando ao seu próximo, seja ele quem for (inclusive seus inimigos), pois foi assim que uns poucos pescadores, pecadores, simples e desconhecidos, no poder do Espírito Santo, mudaram o mundo ao seu redor, cujos atos e palavras ecoaram através do tempo, e nos alcançaram.

E Jesus, respondendo, disse-lhes: Dai pois a César o que é de César, e a Deus o que é de Deus. E maravilharam-se dele.

(Mc 12.17)

segunda-feira, 19 de setembro de 2016

Lição da Tempestade


(Mt 8.23-27; Mc 4.35-41; Lc 8.22-25)

Acreditei por um momento que teríamos um pouco de sossego. Após, comermos um delicioso peixe, o balanço das águas era quase um convite irrecusável para um merecido descanso, então cada um de nós arranjou um cantinho para descansar no barco. Seguiu-se assim por aproximadamente uma hora, até que de súbito, nos sobreveio um vento veemente, e o quase materno balanço das ondas, deu lugar a açoites em nossa embarcação despertando-nos da pior maneira possível, uma furiosa tempestade nos confrontou, revelando o quão breve e frágil era nossa paz. Nosso descanso dera lugar a um medo incontrolável, e porque não dizer que o desespero começou a tomar conta de nós.
Até o mais experiente de nós, Pedro, mostrava-se aterrorizado pela fúria da tempestade. Todos nós olhamos para ele esperando seu comando, porém não havia muito o que fazer, não havia muito o que dizer, foi quando ele vociferou: onde está o mestre? Encontrem-no!

Foi aí que nos demos conta, ele estava conosco, não deveríamos temer. Sim, não deveríamos, mas tememos, somos humanos, e como tal não podemos nos esconder da nossa condição, nossos temores, nossa fragilidade, essa lição, eu já tinha aprendido com ele. Então olho ao meu redor e para meu espanto sou o primeiro a avistá-lo, encolhido na cabine sob o convés a dormir, sim, em meio a nossa agonia, nosso mestre dorme. Não posso negar que vê-lo desta forma me fez questionar muitas coisas. Desde que o conheci, sabia que ele era um mestre, pois nunca houve alguém que ensinasse com tanta simplicidade e autoridade ao mesmo tempo, nem mesmo os mais experientes entre os fariseus conseguiam resistir à sua argumentação. Mas ele era mais que isso quiçá seja ele o Ungido que esperamos, tantas coisas temos visto, tantas lições temos aprendido, e caminhar com ele, segui-lo, tornava a vida mais simples, mais verdadeira, fazia  com que nos sentíssemos mais próximos de Deus, quanto mais próximos uns dos outros estávamos. Nossa vida mudou, passamos a ser identificados como seus talmidins (alunos, discípulos), isso era maravilhoso, motivo até de orgulho para alguns, mas será que nos enganamos? Será que depositamos nossas vidas aos pés de mais um lunático? Que vergonha, nós, os doze que ele mesmo escolheu, morrermos afogados enquanto ele dorme, ele sempre nos disse que seu maior intento era nos revelar o Eterno, nos fazer conhecer lesou Aba (Pai) como sendo o "Aba nosso". Mas qual pai que em meio ao desespero dos seus filhos se cala? Qual pai que no momento que mais precisamos, se vira de lado e dorme? 

Tomado de medo e indignação, corro para despertá-lo, se vamos morrer, que seja de pé, afinal, como homem, eu estava disposto a suportar tudo, inclusive morte, afinal ninguém nos obrigou a entrar naquele barco, ou mesmo a segui-lo, eu podia suportar tudo, menos a indiferença. Não é que eu não acredite em tudo o que vivemos até ali, mas a verdade é que naquele momento, a tempestade era real, o vento era real, a iminência da morte podia ser sentida por todos, mas o seu amor tornou-se apenas palavras, e as experiências de outrora, viraram estórias passadas, nada fazia sentido pra mim. Me aproximo dele, chego sem fazer a menor cerimônia, sem a menor formalidade, apenas decepção, medo e raiva enchiam meu peito. Quando vou tocar-lhe o ombro com a mão, enquanto tento me equilibrar com os solavancos da embarcação, abro minha boca para dizer: "mest.....", antes que eu o toque, ele abre os seus olhos, que fitam diretamente os meus, e antes mesmo que eu termine qualquer palavra, sua voz serena porém firme me diz: "Tomé, ajude-me a levantar!". Tomei um susto, ele me olhou como se soubesse todos arrazoados do meu coração. Mas não havia tempo para palavras, ajudei-lhe a ficar de pé, e ele antes de sair me agradeceu, pondo uma mão sobre meu ombro e com a outra fazendo um carinho em meu cabelo. Com passos firmes e intrépidos ele dirigiu-se ao convés da embarcação, todos olharam para ele, enquanto tentavam se manter de pé ante os solavancos provocado pelas ondas. As águas já tomavam boa parte do navio, quando ele ergueu sua voz ao vento e disse: Aquieta-se! Acalma-se! E imediatamente, as ondas cessaram e o mar se acalmou.Todos nós nos entreolhamos e o sentimento de pavor deu lugar a celebração e júbilos, uns gritavam "Hosanas", outros "Aleluias", somente sendo interrompidos pela sua voz, que agora carregava um tom de desapontamento: "Por que vocês tiveram tanto medo ? Onde está a vossa fé ?". Houve um silêncio sepulcral entre nós e ninguém ousou perguntar-lhe mais nada naquele momento, uns comentavam baixinho: "como ele faz essas coisas?", enquanto outros preferiram se concentrar em tirar a água que invadiu o barco, e em um momento de distração, quando dei por mim Jesus estava ao meu lado, e pondo a mão em meu coração, me abraçou e disse:  "E aqui, a tempestade também cessou filho?", abaixei os olhos de certa forma envergonhado, e com um movimento da cabeça, respondi afirmativamente. 

- E se a minha fé vacilar novamente? 

- Sim, ela vacilará! (disse Jesus)

- Até quando terás misericórdia de mim? Não sou digno de seguir-te.

- Tomé, a fé é como um fruto, que tem o seu tempo próprio para amadurecer. Quanto ao merecimento, não se preocupe, pois nenhum de vocês possui, eu não errei ao lhes escolher, o  Aba me deu cada um e eu os amo, jamais desistirei de vocês.

- Se é assim, quero estar contigo por onde fores, pois ainda que eu não entenda direito, ou não seja constante na minha fé, sei que teu amor por mim é real, e isso me basta.

Não sei ainda responder quem ele é, não sei o que ele quer de mim, na verdade meu coração é mais habitado por dúvidas, incertezas, e incoerências. Mas, aquele que é capaz de acalmar o vento, o mar, e o meu coração, que é capaz de me conhecer, e ainda assim me amar, a ele, e somente ele chamarei de Senhor. 

A tempestade me ensinou que a única segurança, é o do caráter daquele que escolheu navegar conosco. Se Ele pode conviver com minhas dúvidas e ainda me chamar de amigo, eu também consigo, eu consigo, eu acho.

sexta-feira, 15 de julho de 2016

Na Estante




Sábado nublado, após uma semana de intempéries rotineiras preciso sossegar, o corpo, a alma, o fardo que me gruda no ser, feito pulga em cão velho.

Como descansar da fadiga de existir?
Alguém me traga uma taça de vida, transbordante, com hortelã e gelo.
Sentado no sofá da sala de estar, quero música, mas tem que ser daquelas que ecoam do lado de dentro.
Hoje não quero o controle, não preciso de um programa.
Não quero propaganda, não quero assistir, não preciso de entretenimento.
E o tempo passa, mesmo sem passatempos.

Mas quando me percebo, estou olhando para a estante, e os entre livros, O Livro, a Palavra do Eterno. Coloco-me de pé, anseio por ouví-lO, pego e aperto-a contra meu peito, para que ela ouça meu coração.
Como criança que desembrulha o presente, folheio suas páginas, linhas e letras.
Repito em meu íntimo:
- Ele sabe, Ele sabe, Ele fala.

De súbito, a Palavra me encontra:

"Vinde a mim, todos os que estais cansados e oprimidos, e eu vos aliviarei.
Tomai sobre vós o meu jugo, e aprendei de mim, que sou manso e humilde de coração; e encontrareis descanso para as vossas almas.
Porque o meu jugo é suave e o meu fardo é leve."


Mateus 11:28-30

terça-feira, 6 de janeiro de 2015

Mensagem aos vira latas



Aos não merecedores,
Não dignos, não amáveis,
Não suficientes, miseráveis.
Aos não vitoriosos, não virtuosos,
Não iluminados, não abençoados,
Tortos, fracos condenados,
Aos perdidos, excluídos, exilados,
Aflitos, feridos, humilhados,
Sem teto, sem afeto, dejetos.
A todos, absolutamente todos, sem distinção,
Aos sem linhagem, sem pedigree, sem graça,
Aos “vira latas” de coração,
Aos pecadores, não santos,
Multidões, milhares, tantos,
Aos que reconheceram que simplesmente “não são”
E fizeram d’Ele sua única esperança:


- Sim, venham, benditos de meu Pai! Recebam como herança o Reino que foi preparado para vocês desde a criação do mundo.

E
ssa é a loucura do Evangelho
Essa é a loucura da Cruz;
Essa é a loucura da Graça.

Um Deus que subverte completamente a meritocracia por amor.

segunda-feira, 5 de novembro de 2012

O pior cristão que eu já conheci



          
           Aquele era para ser um dia comum, como tantos outros dias comuns na minha vida. Saí de manhã para o trabalho, atrasado como sempre, decidi tomar café da manhã na rua. Antes de chegar no prédio em que labuto, passei em uma padaria próxima, cumprimentei o balconista, pedi uma média de café com leite e um pão com queijo minas.

Um sujeito ao meu lado, depois de ouvir meu pedido fala para o atendente: “faça o mesmo pra mim também”. Então, animado pelo nosso gosto em comum por pão com queijo minas, ele resolve puxar assunto, mas logo segunda-feira pela manhã? Penso resignado “deve ser algum tipo de teste para a minha paciência”. Como teria que ficar por ali alguns minutos, resolvi então dar atenção ao meu ocasional colega de desjejum. Ele começa quase que por uma necessidade compulsiva a me contar da sua vida. Fala que seu colesterol está alto, sua ex-mulher resolveu entrar na justiça pela guarda do seu papagaio de estimação, e que ele até gostava da sua recém solteirice, mas odiava a idéia de ter que fazer todas as refeições sozinho (pensei comigo, percebe-se!). Porém, enquanto ele me contava do seus infortúnios, uma coisa me chamou atenção: ele me disse que era cristão, mas que tinha deixado a igreja e agora peregrinava sozinho em sua fé.

                Eu disse para ele que também sou cristão, mas que diferente dele, eu acredito que ninguém deve vivenciar a sua espiritualidade longe do convívio de outros que partilham a mesma fé, e que a experiência cristã dá-se na coletividade. Ele me respondeu: “também já pensei assim”. Ele começou a me contar que seu isolamento deu-se após sua separação, onde ele começou a viver dissolutamente, me contou de algumas certezas que ele considerava inabaláveis como o amor de Deus, e sua intervenção na Criação, por vezes claudicaram. Disse que a Bíblia já não lhe despertava o interesse de outrora, e que sua coleção de livros teológicos, hoje servia como apoio para o pé da cama que quebrou. Não pude mais ficar indiferente, disse-lhe que eu lecionava na igreja, por isso também tinha muitos livros de teologia, e que a Bíblia me servia como fonte inspiradora e que norteava as minhas decisões. Agora, cheio de compaixão, disse para ele: “nosso encontro não foi uma coincidência, você precisa se levantar, se arrepender e voltar para Jesus”. Meu ilustre desconhecido, começou a me dizer: “você não entendeu, eu não disse que estou desviado da fé, eu apenas não estou na igreja”. Quantas vezes em minha vida como cristão e pregador, eu ouvira tais argumentos, e logo, começamos a discutir sobre a possibilidade de uma espiritualidade solitária. O mais estranho era que para cada colocação minha, ele contra-argumentava como se conhecesse todas as minhas “armas”.

- Amigo, o nosso papo está ótimo, mas preciso ir trabalhar. Gostaria de reencontrá-lo para terminarmos nossa conversa.

- Também preciso ir, e pode ter a certeza que nos reencontraremos.

- Quem é você? Qual é o seu nome? (Perguntei a ele)

- Me diga quem é você, ai saberá o que precisa sobre mim.

                Como se me caíssem as escamas dos olhos, fitei o sujeito nos olhos, e percebi que tinha a mesma aparência que eu, mas com os cabelos um pouco mais brancos, barriga mais saliente, e possuía um olhar calmo. Ao perceber meu espanto, ele se antecipou e disse:
- Sim, sou você daqui a alguns poucos anos.

                O que mais me incomodou não foi a aparência que poderia estar um pouco melhor cuidada, e sim a calma inquietante com que ele falava da sua vida afastado da igreja. Logo eu que desde novo fui um exemplo para muitos, pregador, professor, formado em Teologia, casamento exemplar. Como essas coisas aconteceriam comigo?

- Sei que você deve estar cheio de perguntas (disse ele), e a mais importante delas é: o que posso fazer para mudar o meu futuro? Bem, eu poderia te dizer inúmeras escolhas erradas que você fez, suas culpas, falar do seu jeito impulsivo de agir, mas de nada adiantaria. Suas escolhas são parte do que você é, ou somos (ele ri).

- Mas como você pode estar em paz, sabendo das realidades espirituais, sabendo que seu afastamento o tornou mais vulnerável aos seus instintos carnais, e que desta forma você estará cada dia mais distante de Deus?

- Você esqueceu-se de uma coisa: Ele vive! E o Cristo que você sempre pregou, o Seu cuidado, o Seu amor, Sua Graça, hoje são para mim realidades empíricas. Exatamente nos momentos em que eu  caí, vacilei, tornei-me menos “elogiável”, o Cristo que você prega, tornou-se uma realidade para mim, tornou-se o meu sustento. Certamente só quando percebi todas as mazelas ocultas no meu próprio coração, pude experimentar as riquezas da  Sua Graça.

- Vá trabalhar (disse ele), vá viver, mas para que lhe sirva de consolo, saiba: sou d’Ele. Não sei existir fora d’Ele, no mais sei que tudo Ele fará. Mesmo que eu não seja exatamente como você planejou, sou consciente do pecado que me habita, bem como da Graça que me sustenta. E essa Graça d’Ele, pude experimentar através de pessoas, que encontrei pelo caminho, encontros inesperados, gestos de generosidade, compreensão, acolhimento, mãos estendidas, abraços que consolam, gente, apenas isso: gente! A esses eu aprendi a chamar de irmãos, de minha igreja.

                Levantei-me e o cumprimentei, meus compromissos eram inadiáveis. E com os olhos marejados despedi-me de alguém que certamente eu veria novamente. Ao sair da padaria, caminho alguns passos, olho para trás e vejo apenas a fachada branca, com letras em azul: Padaria Pão do Céu.

segunda-feira, 30 de abril de 2012

O Rato

O rato roeu a roupa do Rei de Roma
Roeu o caráter, roeu a honra.
O rato roeu a roupa do seu José,
Roeu a unha, roeu o pé.

O rato roeu a roupa já escondida,
Roeu a morte, roeu a vida.
O rato roeu a ponta da sua corda,
E vê se acorda, vê se acorda.

O rato roeu a ponta do seu chapéu,
Roeu o inferno, roeu o céu.
O rato se escondeu para ir dormir,
Não está aqui, não está ali.
O rato roeu toda a sua "verdade"
Mas ele não tem vaidade.

O rato deixa as honras pra quem quiser
Ele não quer mais a unha, não quer mais o pé.
Só o autor quer deixar a mensagem do recado seu,
Cadê a mensagem?
O rato roeu.

Alex Nunes, em 30/09/1991 (com 14 anos)

terça-feira, 3 de maio de 2011

Getsêmani




Sinto-me só, em meio a tantos.
Quero te ouvir, em meio ao pranto,
De quem te ama, amor humano.
Com incertezas, temores, espanto.

Nesta hora de pavor e tristeza,
O vazio de Ti já me devora.
Prensas-me no jardim, tão taciturno.
Sobram-me os  gemidos, como quem ora.

Não há anjos a me consolar,
No absurdo, genuflexo, te adorando,
Seguirei a via, minha crucis.
Meu suor é só suor, mas também sangro.

Venham amigos de jornada,
Para grande festa às avessas,
Celebremos com fel servido em cálices,
Tua vontade, a recompensa.

domingo, 1 de maio de 2011

Sem Estrela





A morte ia comigo e eu, com ela.
E vi o seu ridículo vestido,
o andar desajeitado e sem sentido,
o rosto com penteado de donzela,

sendo tão velha, velha, no ruído
de suas meias e sapatos de heras.
Então não resisti e me ri dela,
caçoava de seus gestos confundidos.

E desta sisudez que nada espera,
mas sabe que na vida um só gemido
pode fazê-la emudecer. Insisto

em rir de sua passagem sem estrela,
sem grandeza nenhuma. E se resisto,
é porque está em mim quem vai vencê-la. 


Carlos Nejar

sábado, 23 de abril de 2011

Respostas



Para o medo,
Coragem.
Se for ódio,
Amor.
Ansiedade,
Confiança.
Para o tempo ido,
Recomeço.
Desilusão,
Novos sonhos.
Ceticismo,
Deus.
Para a dor da perda,
Consolo.
Em meio a tragédia,
Solidariedade.
Quando for culpa,
Perdão.
Para os indiferentes,
Empatia.
Hipocrisia,
Com verdade.
Na velhice,
Carinho.
Solidão,
Um abraço.
Para quem se perdeu,
O Caminho.
A humanidade alienada de Deus,
Graça.
Quando enfim, a morte,
Última questão desta vida,
...
Primeiro dia,
...
Segundo dia,
...
Terceiro dia,
...
O túmulo está vazio:
- Ele ressuscitou!

segunda-feira, 18 de abril de 2011

O pastor e a ovelha





Não são as cercas que te prendem,
Nem o pasto que te basta,
Nem a quietude dos riachos,
Ou a segurança do rebanho.
Não é o medo, nem a solidão.
É o que tu és, tua essência.
Seja inverno, verão, ou estiagem,
Nos vales, campos, montes, ou bosques.
Eu te conheço.
Tu me conheces.
Se errares o caminho,
Quando as trevas densas te cercarem,
Confia no que é, ovelha.
Confia no que sou, pastor.
Há abismos que te rodeiam,
E os perigos que te cercam,
Não poderiam te impedir
De ouvires a minha voz,
A chamar pelo teu nome.
E mesmo ferida, eu te ouço,
Não temas!
Minha vara e cajado te consolam,
Teu a aprisco te espera.

quarta-feira, 2 de fevereiro de 2011

Até logo, tia Tusinha !




Hoje recebi a notícia do falecimento da minha tia Ivanilda (seu nome de batismo), mas acho que ela pensava em si mesma com o nome pelo qual toda a família a chamava: Tusinha! Não sei dizer a origem deste apelido, mas sei que até onde a minha memória alcança só me lembro de conhecê-la como “tia Tusinha”.  Minha tia teve uma vida sofrida, mãe de cinco filhos (três destes envolvidos em um acidente gravíssimo com a explosão de uma garrafa álcool, o que lhes marcou bastante), divorciada, evangélica (irmã do “círculo de oração”, com direito a coque e tudo mais). Além de criar da melhor forma possível seus filhos, enfrentar algumas enfermidades terríveis (entre elas uma rara e incurável chamada síndrome de Crohn, que ataca todo o trato digestivo), ela foi uma pessoa sem nada que chamasse atenção para si. Dona de um sorriso discreto, fazia uma torta de limão como ninguém, além de uns bombons de morango que só de lembrar me faz salivar a boca. Eu adorava quando ia passar alguns dias na sua casa, onde passava o dia brincando com os meus primos.

Ela foi uma pessoa comum, com experiências comuns, que fez da criação dos seus filhos, e posteriormente das atividades na igreja sua motivação de viver. Estava sempre em oração pela salvação dos seus filhos e demais familiares.  O que eu posso falar dela? Que era uma pessoa amável e amada, que em meio a inúmeros motivos para desistir, ela sempre foi grata a Deus pelo dom da vida. Quais os motivos para que alguém seja amado? Não sei, só sabemos que amamos uns e outros não, e eu amei a minha tia Tusinha. Posso afirmar que ela era singular (assim como somos todos nós!), no seu jeito, na sua voz, enfim, na sua personalidade. Era uma pessoa comum, e assim como são as pessoas comuns, incomparavelmente única.

Ao lembrar de como foi a sua vida, penso que para sermos amados não precisamos ser “super” em nada, não precisamos ser os melhores em nada, não precisamos competir com ninguém, não precisamos criar auto-enganos, tudo o que precisamos é simplesmente ser. Eu tenho motivos para amar a minha meiga tia Tusinha, mas Deus não precisa de motivos para nos amar, pois ele conhece cada particularidade das suas criaturas, conhece a nossa estrutura, e ainda assim (ou talvez por isso) nos ama.

Quero elogiar a autenticidade de quem não tem a necessidade de aparentar mais do que realmente é, e que por isso, deixa-se moldar segundo o propósito daquele que nos criou como somos, isso é ser cristão, isso é ser puro, isso é ser simples.

Para mim, assim como para a minha família que agora carrega a dor pela ausência, fica o privilégio de ter convivido com alguém tão doce quanto a tia Tusinha. Não sei poetizar a dor. Dor é dor. Mas confesso que aqueles que carregam no coração a certeza  que todas as coisas contribuem juntamente para o bem daqueles que amam a Deus, daqueles que são chamados segundo o seu propósito”, sentem a dor de forma diferente, pois encaram a morte não como um ponto final de uma existência, mas sim como o despertar para a eternidade, onde as dores e as lágrimas desta vida ficam para trás, e então embarcamos nesta última viagem rumo ao nosso lar verdadeiro, onde somos amados incondicionalmente, e como filhos que retornam ao lar, seremos recebidos com o abraço do nosso Deus e Pai.

Por isso tia, adeus não cabe entre nós, apenas um “até logo”, e se puder quando chegar a minha hora, gostaria de te pedir que me esperasse com uma torta de limão daquelas.